Entre Narrativas, Poder e Mistério: um exercício de lucidez no início de 2026

Por Newton Luiz Finato



O início de um novo ano costuma ser tratado como um ritual simbólico. Para mim, 2026 começa menos como uma virada de calendário e mais como um reposicionamento consciente: de método, de imagem interna e de compreensão do mundo.

Ao longo de décadas, aprendi que não é a acumulação de ferramentas que produz clareza, mas a organização do sentido. Ainda assim, reconheço o valor dos instrumentos certos: diário estruturado, planejamento estratégico, sistemas de reflexão e apoio intelectual. Eles não pensam por nós — ajudam-nos a pensar melhor.

Mas a reflexão que inaugura este ano não é técnica. É ontológica.

O impulso humano por sentido

Em algum momento da vida, todo ser humano se vê diante da mesma pergunta silenciosa: de onde vêm todas as coisas — e de onde vem a minha própria existência?

Esse território é antigo. Chamamos de metafísica não porque seja abstrato, mas porque ultrapassa aquilo que pode ser reduzido à experiência imediata. É nesse ponto que surgem as grandes narrativas que estruturam civilizações inteiras.

As tradições religiosas oferecem respostas centradas na ideia de um Criador. A ciência, por sua vez, explica com rigor extraordinário a evolução dos seres e das estruturas do mundo físico. Ambas são construções poderosas — e ambas são parciais.

O problema não está nelas. Está na adesão acrítica.

Narrativas que confortam e narrativas que governam

Ao longo da vida, tive contato profundo com diversas tradições espirituais — da Bíblia aos Vedas, do Tao Te Ching aos Sutras. Essas obras funcionam como metanarrativas de sentido: oferecem um eixo para a confiança, para a ética pessoal e para a interpretação da realidade.

Mas existem outras metanarrativas igualmente determinantes, embora menos percebidas: o Direito, os sistemas éticos institucionalizados, as crenças sociais introjetadas desde a infância. Essas não apenas orientam o comportamento — legitimam estruturas de poder.

Quando não examinadas, elas operam de forma invisível. Organizam o mundo, delimitam o possível, definem o aceitável — sem que tenhamos plena consciência de seus mecanismos.

O estudo e a meditação não me levaram a rejeitar essas narrativas, mas a afastar-me do efeito imediato que exercem sobre a mente.

O mundo líquido e a crise de adesão

Vivemos um tempo em que os grandes sistemas de sentido já não aderem como antes. As narrativas tradicionais perdem força, mas nada plenamente consistente ocupa seu lugar. Alguns buscam novos caminhos; outros escorregam para uma descrença difusa.

Esse fenômeno não é apenas cultural. É existencial.

O mistério não se resolve — se habita

Talvez maturidade seja isso: não substituir uma narrativa por outra, mas aprender a habitar conscientemente o intervalo entre elas.

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