O INVERNO ÁRABE
Cláudio Lembo *
De São Paulo

Restam, no entanto,
perguntas não respondidas. A História da Líbia é de conflitos permanentes.
Desde a antiguidade, a área geográfica, onde se situa o país, foi invadida por
inúmeros povos: fenícios, gregos, romanos, vândalos e bizantinos.
Em tempos mais recentes,
italianos, alemães, ingleses e franceses estiveram ocupando os desertos que se
estendem, a partir do Mediterrâneo, no norte da África.
Beberes e árabes formam
a população líbia que, a partir do governo de Mohamede ben Ali - em 1840 -
adotou o islamismo como religião, a partir de uma seita que se tornou altamente
popular.
Aqui a primeira pergunta
sem resposta. A queda violenta de um governante, ainda que ditador, não gerará
um clima de humilhação e revolta em grande parcela da população?
Esta é muçulmana.
Durante os últimos séculos, foram vítimas do colonialismo e do imperialismo
que, sem escrúpulos, utilizou as riquezas naturais dos povos dominados.
Até há pouco, os
governantes europeus cortejavam Kadafi e o utilizavam para negócios
exuberantes. De repente, o dirigente morto caiu em desgraça.
Para derrubá-lo,
somaram-se as maiores e mais poderosas forças armadas. Estados Unidos aliados à
OTAN - Organização do Tratado do Atlântico - bombardearam sem piedade
populações civis.
Quando se realizam
operações militares contra alvos indiscriminados restam traços de rancor e
desamor nas coletividades agredidas. Até hoje, apesar das aparências em
contrário, as populações das cidades alemãs bombardeadas na
última Grande Guerra - particularmente Dresden, Frankfurt e Berlim - guardam a
dor pela perda de seus antepassados.
O Ocidente, em sua ânsia
de dominação, vai semeando ódio e desencanto por toda a parte onde se encontram
presentes os muçulmanos. Ontem, foi o Iraque e o Afeganistão. Hoje, a Líbia.
Esta macabra escalada
precisa conhecer paradeiro. Ser finalizada. Irá tornar a falsa primavera árabe em rigoroso
inverno, nas relações entre os povos.
Os dias de hoje recordam
o dramático e brutal episódio das cruzadas. Agrediram populações que as
receberam calorosamente. Saquearam. Mataram. Violentaram. Em nome de valores
religiosos, praticaram atrocidades inomináveis.
Repetir a História é
tolo. O Ocidente sempre a repete se fundamentado em princípios intrinsecamente
valiosos. Fala em democracia. Omite que esta, para ser implantada, exige
condicionantes culturais e sociais.
Na verdade, o que se
constata é o interesse econômico nas áreas integrantes da chamada falsamente
Primavera Árabe. Está se gerando, na verdade, uma grande reação dos povos que
adotam o Islam como religião.
O futuro demonstrará
que, apesar das intervenções econômicas que virão, um substrato de animosidade
restará presente. Quem é agredido, mais cedo ou mais tarde revida.
É lamentável que os
países europeus e os Estados Unidos conheçam apenas as armas como diplomacia.
Seria oportuno adotarem o diálogo como forma de resolver conflitos.
Chegou-se ao Século XXI
com os mesmos vícios da antiguidade. Não se busca a paz. Deseja-se a guerra.
Violam-se princípios. Aplaude-se a morte de pessoas indefesas.
Não é assim que se educa
para a democracia. O devido processo legal e o direito de defesa são
sustentáculo de valores perenes. O espetáculo selvagem visto nos últimos dias
empobrece a humanidade. Envergonha seus autores.
A Primavera Árabe
transformou-se no inverno dos mais elevados
valores concebidos no decorrer do tempo. Continuam selvagens, como sempre.
* Cláudio Lembo é
advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo
de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador.
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